Decisión

Tive uma visão: uma velhinha curvada atravessa a rua vagarosamente... sua única companhia é uma bengala de madeira, onde se apoia pra não cair. Mas como?! Se somos seres decaídos, herdeiros de lúcifer que não se contentou com o céu, aquele que ousou ir além com seu orgulho e vaidade.
Alguém avise esta velhinha que a vida é apenas resultado de probalidades que se combinam.
Sou uma probalidade do que É e do que NÃO É, eternamente, ora humana, ora desumana.
O que é humano? Alguém aí pode me explicar?
Decante que sou, desejo mais do que já me pertence.
Não quero só um, quero dois!
Não, pensando bem quero três!
Ou nada, quero outra coisa, isso... aquilo... aquele outro.
Já não há nada a ser feito, a velhinha já alcançou seu objeitvo: sobreviver a mais um passo.


Catarse Primaveril

O céu rugi parindo a chuva que molha e arrefece as entranhas da terra.

Uma libélula bêbada em vôo sem rumo busca um abrigo tranquilo na selva de pedra.

Em seu sonho embriagado, paira suavemente por entre flôres tropicais.

Sua estrutura leve lhe permite percorrer o espaço sem barreiras e o tempo nada mais é o rio que flui sem pressa de chegar.

A tempestade humedece e refresca o asfalto quente e gastado.

A natureza reclama o espaço roubado.

O comprimisso se atrasa, o guarda-chuva quebra, o trânsito pára, a luz se acaba, o casal se ama, a criança observa pela janela, a roupa se lava no varal...

Enquanto a vida se rega e o céu se liberta, a libélula repousa, plena e serena, em seu ser.

El Pescado

Sexta-feira de lua cheia, que nao se via porque ainda estava de dia.

E neste dia o destino já estava morto. Mesmo assim foi difícil decapitar-lo, destripar-lo e assar no forno com batatas. Seus olhos seguiam inexpressivos e as escamas brilhavam como se ainda estivesse sendo.

Quando estiver pronto come-lo-ei sem sal com fome e com pesar.

Pies Cansados

Estão no meio da ponte. Nao alcançam ver o final e tão pouco o início.
A parte percorrida até aqui está tapada pela densa neblina do tempo.

Ás vezes, quando o vento sopra com pressa, balançando a ponte, eles se agitam intranquilos buscando a segurança estática.

Estão na metade da meta, sujeitos a conjugação do verbo: eles existem, insistem e resistem. Seguem este aspiralado caminho sem sentido, limitado e infinitamente imenso.

O único ponto de referência é o momento, este fugaz companheiro de uns pés peregrinos em busca do desconhecido.

Quem sabe se no final haverá algo tão novo e extraordinário como tudo o que agora É?

Meus pés ainda doem, mas o pior já passou.

Outono

Manhã de luz tíbia e calor tímido.

Outono: a decrepitute que antecipa e prepara um novo recomeço.

Aqueles caquis doces alaranjados comidos diretamente do pé, colhidos por suas mãos, me deram na boca o gosto do paraíso.

Pouco a pouco os ninhos das andorinhas se desfalecem, seguindo a lógica da vida.

As folhas caem, sem resistência ao vento e a gravidade atraente, com a consciência tranquila, pois sabem que seu papel já foi cumprindo.

Ensinam silênciosa e humildemente aquilo que os homens esqueceram.

Eu, deixo o outono, como os passáros, vou em direção ao calor do seu afeto.




Verano en Caudiel

 "Hay un minuto en que se agota la siesta. Hasta la secreta, recóndita, minúscula actividad de los insectos cesa en ese instante preciso; el curso de la naturaleza se detiene; la creación tambalea al borde del caos y Yo me incorporo, babeando, con la flor de la almohada bordada en la mejilla, sofocada por la temperatura y la nostalgia; y pienso: todavía es agosto en Caudiel."

Diário plagiado de La Hojarasca; García Marquez

O Idiota que roubou Dostoievski


Breve relato insólito de um pequeno crime sem castigo
"Ao fim e ao cabo somos o que fazemos para mudar o que somos". Era a frase escrita no marcador que estava separando as últimas 200 páginas das 800 que já tinham sido literalmente devoradas.
A parte o livro havia outras coisas: um lanche de atúm com tomate, uma casca de banana, um celular antigo, uma passagem de trem para Caudiel, um moedeiro com 10 euros, um documento de identidade e um caderno de capa vermelha com fohas em cor amarelo-cremoso onde a jovem estrangeira escrevia suas alegrias e suas angustias existenciais.
Julgando pelos demais objetos que haviam dentro da mochila felinamente furtada, o idiota se deu conta de que o indivíduo roubado, uma estudante estrangeira, estava quase que na mesma situaçao financeira que ele.
O que mais lhe chamou a atençao foi o caderno que se dispos a ler cada página com uma curiosidade sádica e libidinosa. Notou que as datas marcadas nao seguiam uma sequência ordenada e que a letra variava segundo o estado de ânimo da escritora. Parecia que quando estava contente escrevia com formas harmoniosas e femininas e quando estava deprimida a letra era agressiva e pontiaguda.
Ao decorrer das páginas seu interesse passou de mera curiosidade a uma atraçao estomacal por aquelas confidencias roubadas. Paragráfo a pagrágrafo, foi se reconhecendo nas dores, nas dúvidas, nos medos, nos sonhos e nos desejos alheios. Sentia uma mezcla de afinidade e rejeiçao.
Parecia que estava olhando um espelho que refletia uma imagem desconhecida de si mesmo. Com a mirada fixa e angustiada via claramente seu reflexo frágil e oculto, tapado por uma grossa capa de orgulho e vaidade.
Durante 7 dias seguidos voltou ao parque onde havia encontrado por causualidade sua outra metade. Sentava extamente no mesmo lugar onde descansava a dona do caderno para ler o livro que ela nao pode terminar, Os irmaos Karamazóv.
Desde entao passou a ser admirador de Dostoiesvski e frenquentandor assíduo de sebos e livrarias da cidade.