Feliz 2013
Mensagem de Natal
Feliz 2013
Sergio Sampaio - Cabra Cega
Pra você que mal enxerga
Uma estrela, um vaga-lume numa noite de verão
Pra você que mal enxerga
Uma nave extraterrena vai ser sempre um avião
Um satélite perdido, um delírio coletivo
Um balão de São João
Por isso chega mais pra perto, cabra cega
E pega na minha mão
Tira a venda, enxerga
Abre a janela e os olhos do coração
Invisível ao meu redor
Tic tac tic tac
Nesta teia sútil caminho insegura, como cego que quer tocar o impalpável, para quem sabe um dia, encontrar o fio que me conduz ao centro de mim.
Eu em Sampa
Clariciana
Fascinada com as gotas de vermelho sangue-útero que pingavam na água do vaso sanitário, ao mesmo tempo, ela sentia uma pequena tristezinha em saber que pedaços dela estavam indo para um esgoto fétido misturar-se com outros dejetos. Seu organismo leva um tempo todos os meses se preparando para acolher a vida que agora se desfaz tão facilmente, uma potência perdida!
Isso reforça sua melancólica impressão de que a vida se alimenta da morte e vice-versa. Trabalha pra ganhar dinheiro, com dinheiro compra comida, o necessário para obter energia para trabalhar... ciclo vital ou vicioso? Gasta sua vida para viver. Tipo uma bateria que se descarrega para carregar a si mesma!
É ridículo, cômico. Tão cômico que se transforma em absurdo. Quando pensa nisso sua cabeça começa a doer, lateja dos lados, como se um martelinho invisível desse pancadinhas leves em sua têmpora a cada três segundos.
No centro da cidade efervescente, tira da bolsa um remédio para diminuir ao menos o seu mal-estar físico agravado pelo perfume fedido que, às seis horas da manhã, é obrigada a respirar dentro do ônibus. Junta saliva na boca e se esforça para que aquele pedaço branco e amargo desça goela abaixo.
Estava atrasada para o trabalho, mas pra que pressa?! Temos pressa de chegar, fazer, cumprir. Queremos encher o saco vazio da vida, encher até ele estourar. Mas a vida dela é um saco mágico sem fundo que vai sugar tudo até a morte.
Pela janela observa os painéis de publicidade multicoloridos com pessoas lindas e sorridentes transmitindo felicidade e prometendo paraísos: cheque especial, cartão sem limite, cinco suítes, garagem para dez carros, emagreça sem esforço... Inevitavelmente a náusea vem nesses momentos em que sente o vazio do seu mundo. Fica mareada e se controla para não vomitar, o ônibus dá um solavanco, tenta se equilibrar, pisam no seu pé, puxa o sinal, mas o motorista para no outro ponto.
Na calçada conseguiu se acalmar. Estava se sentindo um ser à parte de toda aquela dinâmica organizada que deveria seguir ordeiramente. Pensou em se rebelar, fugir, seguir outro caminho, afinal o que se perderia abandonando um emprego de vendedora de lingeries? Todos os dias eram a mesma coisa: calcinha preta é discreta, serve para qualquer situação, além de disfarçar a gordura em excesso... rosa paixão é para ocasiões especiais e combina com o seu tom de pele bronzeada (artificialmente)... "será que meu namorado não vai achar comportado demais?" Qual a quantidade de merda que uma pessoa consegue ouvir por dia?
Mas não sabia qual o limite da sua liberdade... É totalmente livre pra fazer o que quiser ou há rédeas inconscientes que a guia por caminhos indesejados? Liberdade soava uma palavra mais que abstrata como o amor. Não havia encontrado nada que lhe personificasse o amor, nem mesmo o de Deus.
Viu que semáforo estava no amarelo, atenção! Com um pé direito na rua e o esquerdo na calçada exitou. De onde vinha este impulso que a fazia vasculhar as possibilidades da vida? Agora está vermelho, pare! Recuou, seu cotidiano não comportava o imprevisível, tinha que se submeter ao imperativo que a impuseram. Cabisbaixa seguiu seu caminho, ainda era imatura demais para se desfazer do antigo casulo.