Memórias resgatadas

Caderno II

Preciso organizar meus sonhos na prateleira da vida.
Vai que alguém resolva pegar sem me consultar!
Ou até mesmo roubar. Mas aí já é demais!
Cada um deve ter o seu e deixar o meu conservado de traças, poeiras e dissoluções.

Eu deveria ter levantado,
pego uma caneta e anotado
do começo ao fim
letra por letra
sem tirar ou pôr.
Deveria ter escrito
na tua frente
de modo que depois
nem você pudesse negar
que naquela noite
sussurrastes em meus ouvidos:
que eu sou uma estrela.


Chute a bola
contra a parede
Como se ali
estivesse a rede.

Eu preciso saber como se faz para observar os Homens do alto.
Como se chega a altura?
Qual é o caminho?
Por que eu quero ver os Homens do alto?
Como eu posso ter certeza de que estarei vendo-os do alto?

Teve uma crise psicótica!
Gritou, esbravejou e chorou.
Chorou porque as angústias não cabiam mais em seu corpo.
As lágrimas eram a tristeza pálpavel.
Quis ser pintora, pintar sua vida.
Ser artista de sua própria existência.
E de todas as cores encontrar aquela que possua a beleza de uma flor.






Memórias resgatadas

Caderno I

Inofensivo,
alvo e leve.
Assim como uma folha de papel.
Cortou-me, quando nele tentei escrever uma história.



Toda minha pele exala desejos, vontades, ansiedades.
Socorro!
Algo que me contente. Há?
Sustente, satisfaça.
Estou confusa.
Tantas palavras para dizer.
Tantas sensações entrando pelos meus olhos.
Tudo me faz desejar.
Será a idade?
O tempo?
A situação?



Divagar
vagarosamente
em lembranças vagas
que vagam na mente.


O que as pessoas querem ouvir falar?
O que dá prazer ler?
Sobre amor, sexo, política, tragédia?
Que tal falar sobre o riso?
Sobre o olho no olho.
Sobre a afirmação pessoal.
Talvez usar a alegoria de um palhaço.
O valor dos sentidos e o exagero da racionalização.


Apaguem a luz da minha existência racional.
Ela está ocultando a beleza da sensação.






Digestivo


Pra esta quarta-feira de frio sem teu calor.


Um hemisfério numa cabeleira



Deixa-me respirar longamente, longamente, o cheiro dos teus cabelos, mergulhar neles todo o meu rosto, como um homem sedento na água duma fonte, e agitá-los com a mão como um lenço perfumado, para sacudir recordações pelo ar.


Se pudesses imaginar tudo o que vejo! tudo o que sinto! tudo o que ouço nos teus cabelos! Minha alma viaja no perfume como a alma dos outros viaja na música.


Teus cabelos encerram todo um sonho, povoado de velas e de mastros; encerram grandes mares, cujas monções me conduzem a maravilhosos climas, onde o espaço é mais azul e mais profundo, onde a atmosfera é perfumada pelos frutos, as folhas a pele humana.


No oceano da tua cabeleira entrevejo um porto formigante de canções melancólicas, de homens vigorosos de todas as nações, e de navios de todas as formas, cujas arquiteturas finas e complicadas se recortam num céu imenso onde se repoltreia o calor eterno.


Nas carícias da tua cabeleira reencontro os langores das longas horas passadas sobre um divã, no camarote de um belo navio, acalentadas pelo imperceptível balouçar do porto, entre as jarras de flores e as bilhas refrigerantes.


Na lareira ardente da tua cabeleira respiro o odor do fumo de mistura com o ópio e açúcar; na noite da tua cabeleira vejo resplandecer o infinito do azul tropical; nas margens penugentas da tua cabeleira embriago-me com os perfumes combinados do alcatrão, do almíscar e do óleo de coco.


Deixa-me morder por muito tempo as tuas negras e pesadas tranças. Quando me ponho a mordiscar os teus cabelos elásticos e rebeldes, parece-me que estou a comer recordações.


(De Pequenos poemas em prosa de Baudelaire)





08/072002

Juro que não queria me importar,
Prometo que não irei incomodar,
Sinto que não há nada em que acreditar.
Não culpa minha se só assim sei pensar.

Mas o que fazer?
Jurar, prometer ou sentir?
Acho que é só deixar a vida fluir.

Interior Ismo

Sob o jugo da forma:
conteúdo.
Dentro dela o ser profundo.
Tal qual semente que habita o fruto;
Serás árvore sem raízes,
Terás asas ao invés de folhas,
Te alimentarás de sonhos,
E darás de comer á todos
que de amor tenham fome.

"Palabras para Julia" y para mí

Tú no puedes volver atrás
porque la vida ya te empuja
como un aullido interminable.

Hija mía es mejor vivir
con la alegría de los hombres
que llorar ante el muro ciego.

Te sentirás acorralada
te sentirás perdida o sola
tal vez querrás no haber nacido.

Yo sé muy bien que te dirán
que la vida no tiene objeto
que es un asunto desgraciado.

Entonces siempre acuérdate
de lo que un día yo escribí
pensando en ti como ahora pienso.

La vida es bella, ya verás
como a pesar de los pesares
tendrás amigos, tendrás amor.

Un hombre solo, una mujer
así tomados, de uno en uno
son como polvo, no son nada.

Pero yo cuando te hablo a ti
cuando te escribo estas palabras
pienso también en otra gente.

Tu destino está en los demás
tu futuro es tu propia vida
tu dignidad es la de todos.

Otros esperan que resistas
que les ayude tu alegría
tu canción entre sus canciones.

Entonces siempre acuérdate
de lo que un día yo escribí
pensando en ti
como ahora pienso.

Nunca te entregues ni te apartes
junto al camino, nunca digas
no puedo más y aquí me quedo.

La vida es bella, tú verás
como a pesar de los pesares
tendrás amor, tendrás amigos.

Por lo demás no hay elección
y este mundo tal como es
será todo tu patrimonio.

Perdóname no sé decirte
nada más pero tú comprende
que yo aún estoy en el camino.

Y siempre siempre acuérdate
de lo que un día yo escribí
pensando en ti como ahora pienso.



José Agustín Goytisolo

Decisión

Tive uma visão: uma velhinha curvada atravessa a rua vagarosamente... sua única companhia é uma bengala de madeira, onde se apoia pra não cair. Mas como?! Se somos seres decaídos, herdeiros de lúcifer que não se contentou com o céu, aquele que ousou ir além com seu orgulho e vaidade.
Alguém avise esta velhinha que a vida é apenas resultado de probalidades que se combinam.
Sou uma probalidade do que É e do que NÃO É, eternamente, ora humana, ora desumana.
O que é humano? Alguém aí pode me explicar?
Decante que sou, desejo mais do que já me pertence.
Não quero só um, quero dois!
Não, pensando bem quero três!
Ou nada, quero outra coisa, isso... aquilo... aquele outro.
Já não há nada a ser feito, a velhinha já alcançou seu objeitvo: sobreviver a mais um passo.